No meio da Area - 1998

No meio da Area - 1998

Zé e José

(Zé Geraldo/Marcão Lima)


Zé e José eram amigos de fé
e sentimentos
Se ajudavam nos momentos difíceis
Sorriam juntos na felicidade
Os pés no chão, o tempo a favor
Namoro com as moças bonitas
Noites e luas no interior

Ser feliz incomoda aos que são amargos
Alguns pais carrancudos
lhes chamavam vagabundos
Sejam como nós, diziam eles

Pela primeira vez
Zé e José se embriagaram
Não entenderam a culpa
agora instalada nos seus corações

Aprisionados foram aos compromissos
Apenas os domingos
programados para serem livres
Livres pra pensarem na segunda-feira
quando estariam atrás dos balcões
Cabeças treinadas para competir
Sementes de toda ambição

José...
José progrediu
Calculista e frio
Sorriso plástico
Frequentava a Câmara e o Senado
Enganava o povo
Não tinha amigos
Fez um pacto com o Diabo
e se perdeu na escuridão

E o Zé?
Zé não se deu bem no comércio
Se apaixonou por uma viola
que ganhou de um velho bêbado
que lhe contou uma história
sobre a cor dos sete mares
e de tesouros escondidos
no peito do próprio homem
Lhe disse também
Cante ao mundo
o que vier do fundo do seu coração
E a luz se fez

Zé cantou histórias das estradas
Reencontrou o sentimento perdido
Emocionou multidões
Aplaudiu
Foi aplaudido
Zé nunca mais sentiu culpa em ser vagabundo
Voltou a ser feliz

 

 

Luz Ainda que Tardia

(Zé Geraldo/Tavares Dias)


Procurei no mundo inteiro
o que estava aqui tão perto
Meu coração brasileiro
conspirou mas não deu certo

Amei você noutros corpos
Traí você com a poesia
Garimpei guisos e fitas
Me enrolei na fantasia

Mas por um desses mistérios
de Deus ou da natureza
Atropelou-me a certeza
que meu caminho é você
pois na penumbra desses anos
Viagem que alumbra e assombra
Fugiu-me até minha sombra
Mas me seguiu seu amor

Luz ainda que tardia
Lux quae sera tamem

 

 

Banquete de Hipócritas

(Marco Rezende)


O presidente come o vice-presidente
que come o diretor
O diretor come o gerente
que come o supervisor
O supervisor por não ter a quem comer
come o trabalhador
O trabalhador come o pão
que o diabo amassou

Banquete de hipócritas
Banquete de hipócritas
Comeu, comeu, comeu, comeu, comeu
Quem sobrou fui eu

 

 

Blues do Municipal

(Birhú de Pirituba/Daniel Cabana)


Andando meio bêbado e cansado
pelas ruas do Municipal
Estou com os mendigos
a sós outra vez
Na cidade
Na cidade adormecida

Eu olha pra cidade
aspirando o seu odor
de solidão
Das ruas amargas
Os lampadários
Os lampadários cospem no silêncio noturnal

Esvazio a garrafa de cachaça
Em meio à escadaria do teatro
Meu olhar vagueia pela praça
Em meio à fome dos ratos
na ânsia do amanhecer

Não aguento mais
gostar de você assim
Vou me afogar
quando abrir os botequins
Não aguento mais mina
Não aguento mais mina
Não aguento mais

 

 

Olhos de Jardineiro

(Zé Geraldo)


Esperar
é acreditar
A vida me ensinou a esperar

Quantas vezes eu quis ter
um jardim pra te dar
Quando tinha a terra
faltava a semente
Quando tinha semente
vinha a chuva forte
e levava tudo embora

E pra complicar
Andei por caminhos
tortuosos
Foi difícil voltar

Tivemos noites de vendavais
E em noites de vendavais
o dia demora a chegar
E foi assim

Ainda bem que desses anos todos
guardamos restos de sonhos
Rabiscos, pedaços de versos
Canteiros do nosso jardim
Vem ver

A Primavera floriu
Flor de Maio tá tão linda
Inda nem é abril
Onze horas sem-vergonha
dá por todo lado
Beija-flor apaixonado todo dia vem beijar
e contar os botões
que ainda tem pra abrir
E partir em busca
de outras flores
em outros jardins

Já estive com outras flores
em outros jardins
Hoje estou aqui
pra te regar
te proteger dos ventos
Te cuidar
Te servir
pra o que for
Os olhos do jardineiro
é que abrem o botão da flor

 

 

Coroação de Maria

(Zé Geraldo/Tavares Dias)


Deus vos salve Senhora
Bela Constelação
Lembro nesta santa hora
Vossa coroação

Mês de maio
Quermesse e procissão
Ladainha
Novena e louvação
A prenda mais linda
no sonho do leilão
é Maria
Virgem da Conceição

Cada cor uma congregação
Na bandeira o sinal da devoção
Todos vão pedindo
A vossa intercessão
Que nos leve ao sagrado coração

Todo o povo cantando em oração
Vos pedindo a sagrada comunhão
Veste linho branco em vossa saudação
Feito anjos no altar da criação

 

 

Demasiadamente Urbano

(Renato Teixeira)

 
Entro na condução
e vou pra cidade
Tão logo o dia esteja
eu estou também
Vou pra repartição
Repartir a vida
Na lida
batida
Na contra-mão
de tudo...

A hora do almoço
é do sanduíche
Em pé, eu sou aquele
lá no balcão
Dentro da lanchonete
eu penso na vida
e mastigo um sonho
Com gergelim
Viajo...

Eu crio asas
e sobrevôo esta cidade
E de repente
o que era asfalto
vira chão
Eu vejo rios
e montanhas
Passaradas
E vejo luz
e vejo céu
e bebo ar

Eu sei que sou demasiadamente urbano
Mas qualquer dia isso tudo vai mudar

A tarde é fria
Hoje em São Paulo chove
Roncam motores
Sirenes e trovões
Às vezes é tão triste
a chuva caindo
e uma lágrima alaga
o meu olhar
Vou indo...

Entro na condução
no final do dia
O mesmo rumo
A mesma situação
Vou pela Marginal
e é chegar em casa
e o Jornal Nacional
me dar boa noite
E eu durmo...

 

 

Uma Balada pra Gija

(Zé Geraldo)


Chegou numa tarde de sol no mês de setembro
Eu me lembro bem
Trazia no olhar a ternura e a esperança que traz
Todo aquele que um dia vem
Foi o dia mais calmo do ano
que o brasileiro viu
Os canteiros brotando do asfalto
De repente se viu

Os garotos saíram às ruas
Gritando as manchetes
"A incerteza acabou"
Meu canário que andava mudo, triste
Neste dia desencantou
Foi o dia mais claro do século
que a humanidade viu
Um riacho cortando o deserto
De repente se viu

Eu tinha deixado a metade da vida
às margens da estrada
Abatido e cansado da luta diária
Porteiras fechadas
Com sua chegada todo o universo se enfeitou
E eu nem sei quem primeiro chorou
Só sei que depois desse dia todo o mundo mudou

Catedráticos voltaram pra escola
pra reformular os compêndios de vida
Matemáticos buscaram fórmulas
pra calcular a alegria incontida
Todo o povo saiu às ruas
Gritando bem alto "A incerteza acabou"
Eu só sei que depois desse dia todo o mundo mudou

 

 

Traficantes de Abobrinhas

(Zé Geraldo/Tavares Dias)


Elite estúpida e senil
que empresta amparo legal
pra todo mal do Brasil
Verme do toma-lá-dá-cá
que vende o voto de vetar
a violência e a miséria

Só trapaça, choro e morte
Quanto horror
o seu consórcio ainda quer financiar?
Chega de preso e de presunto, seu doutor
É tempo de se produzir consumidor

Caciques bregas, trapalhões
com seus jornais, rádios, tevês
Vão traficando abobrinhas
Perdendo a chance de veicular

Olha aí, mano!
Cidadania, consciência e nutrição
Medicina preventiva e alegria
Noções de amor à vida e paz em cada esquina
Ciência, auto-estima e tecnologia

Criar gente sadia, meu rico doutor
Capaz de conduzir um sonho bom
É só questão de amor, de compaixão
e com certeza ainda rendia um dinheirão

Ai que malvadeza seu doutor
Que elite escrota, que congresso mais chulé
Mas cada um só dá o que tem
Dá o que tem, meu senhor
E mostra o que é

 

 

Meninos

(Juraildes da Cruz)


Vou pro campo
No campo tem flores
As flores têm mel
E mais de noitinha
estrelas no céu
O céu da boca da onça é escuro
Não cometa, não cometa, não cometa furo
Pimenta malagueta não é pimentão

Vou pro campo
acampar no mato
No mato tem pato, gato e carrapato
Canto de cachoeira
Dentro d'água pedrinhas redondas
Quem não sabe nadar
não caia nessa onda
A cachoeira é funda e afunda

Não sou tanajura mas eu crio asas
e com os vagalumes eu quero voar
O céu estrelado hoje é minha casa
e fica mais bonita quando tem luar
Quero acordar com os passarinhos
Cantar uma canção com o sabiá

Dizem que verrugas são estrelas
que a gente aponta
Que a gente conta antes de dormir
Eu tenho contado
mas não tem nascido
Isto é história de nariz comprido
Deixe de mentir

Os sete anões pequeninos
Sete corações de meninos
A alma leve
São folhas e flores ao vento
O sorriso e o sentimento
Da Branca de Neve

 

 

No Meio da Área

(Zé Geraldo)


Por achar a porta aberta
é que o meu cachorro entrou
Quem convida quer dar festa
O convidado já chegou
Ora pois a hora é essa
Não interessa quem chutou
Bola rolando no meio da área
malandro, é o quê?
É gol
Deixe o jogo correr solto
que o jogo se ganha é no chão
Trate a moça com carinho
Cuidado com a marcação
Pulica, Frangueiro, Zelito
comando o agito
seguram o rojão
Ninguém vai cantar de galo
na nossa jurisdição

O galo cantou e eu tenho que ir embora
Quando o galo canta na minha terra já é hora
De ver a cara do dia
E dar um beijo na aurora

 

 

Ficha técnica

Produtor fonográfico: Paradoxx Music
Direção artística: Sidnei Santoro
Produção musical: Hamilton Griecco (Micca)
Estúdio de gravação: Teclacordy - São Paulo - fevereiro e março/98
Engenheiro de som: Constant Papineanu e Micca
Assistentes de estúdio: Simão e Nonato
Estúdio de mixagem: Art-Mix - São Paulo - abril/98
Mixado por: Micca
Engenheiro de som: Cotô
Capa: Quarto Mundo
Fotos: Ricardo Junqueira
Coordenação gráfica: Adriano Melo

 

Músicos

Carneiro Sândalo: bateria e percussão
Rodrigo Sater: violões
Xuxa Levy: teclados
Pety Calazans: hamond
Carlito Rodrigues: baixo
Otávio Bangla: sax
Jean Trad: guitarras
Mario Manga: cello
Fabio Tagliaperri: violinos
Edmundo Carneiro: pandeiro

 

Participantes

Grupo Manimal (Vitória - ES): faixa No Meio da Área - a principal característica do grupo é a inclusão de tambores de congo em suas músicas.
Miltinho Edilberto - violeiro que dá um brilho especial em Coroação de Maria